Van Persie prestes a sair: as boas lembranças ficam

Após meses de especulações que colocaram Robin van Persie em todo lugar do planeta - até mesmo um retorno ao Arsenal foi cogitado por alguns portais -, parece que a novela terá um fim com o jogador realmente deixando o Manchester United. O provável destino é o Fenerbahce, da Turquia, que teria acertado os termos contratuais com o atleta e seu empresário e agora discute o valor da transferência com Ed Woodward, segundo o Guardian.

Caso o negócio se concretize, o holandês se juntará a Nani - ele mesmo - em Istambul. O português, que partiu de Old Trafford deixando uma sensação de que poderia ter mostrado muito mais com a nossa camisa, acertou sua saída pela taxa praticamente irrisória de 4,5 milhões de libras.


E esse sentimento de ‘o que poderia ter sido se...’ também é válido para o atacante, embora o número 20 que carregou nas costas tenha marcado algo muito mais significativo. O declínio apresentado nas últimas duas temporadas podem ter borrado - levemente - as histórias que escreveu enquanto esteve conosco, mas com certeza não as apagaram. E é isso o que precisamos entender. Apesar da parte ‘ruim’, os momentos bons e a importância que demonstrou ter ao nosso grupo jamais serão esquecidos. Vamos recapitular.


Terminada a campanha de 2011/12 e o gosto na boca dos red devils era o da amargura. Kun Agüero, naquele momento que gostaríamos de esquecer mas precisamos relembrar para colocar tudo sob perspectiva, marcou aos 94’ para tirar a Premier League do nosso colo e acabar com o jejum de três décadas do City. Sir Alex Ferguson, já pensando na aposentadoria, não suportaria: precisava terminar no topo e não mediu esforços para isso. Aí entra a figura de van Persie; o holandês tornou pública sua insatisfação com a incapacidade de erguer uma taça no Emirates e o outro lado de Manchester entrou na briga. O United, porém, foi mais forte e desembolsou £ 24 milhões pelo último artilheiro da liga nacional e um dos melhores e mais completos centroavantes em atividade na Inglaterra, apesar da idade já avançada de 29 anos.


Não faltava apenas uma peça para o nosso inconsistente quebra cabeça, mas sim várias - pelo menos no papel; Rio Ferdinand e Vidic já davam sinais de retrocesso, Valencia e Young ocupavam as pontas e a vaga ao lado de Michael Carrick era disputada por Tom Cleverley, Anderson e o veterano Ryan Giggs. Carências esquecidas e problemas reduzidos por um único jogador, que estreou fazendo gol e terminou a temporada da mesma forma, sempre decisivo. A campanha de 2012/13 também teve outro sentido, o de provar que ainda éramos fortes o suficiente para trazermos o troféu de volta ao lado vermelho da cidade. Em seu primeiro derby, no Etihad, decidiu no último minuto e fez o United abrir seis pontos de distância na liderança. Daquele momento em diante, não perdemos o ritmo e garantimos uma despedida de (muita) honra para Fergie.


A partir da data de seu desembarque em Old Trafford, van Persie instigou o grupo a vencer. Algo curioso, dado que o próprio tinha uma sala de conquistas bem humilde se comparada à da maioria dos seus novos companheiros. Nas palavras de Sir Alex, o impacto inicial causado pelo holandês foi semelhante até mesmo ao da lenda viva Eric Cantona. Nem é preciso se alongar muito nessa questão para notarmos que sua vontade de ganhar, aliado com um futebol de primeira qualidade, foram imprescindíveis nesses primeiros 10 meses. Sua relação com o torcedor foi aquela do amor à primeira vista.


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Cansado da monotonia e da briga pelo quarto lugar contínua no Norte de Londres, van Persie chegou em Old Trafford para vencer e cumpriu com o prometido


Na sequência, porém, sua trajetória começou a se defasar. Com David Moyes, muita coisa deu errado e creio que todos preferem esquecer a temporada de 2013/14. De qualquer forma, os números do atacante não foram tão ruins quanto se parece: 23 jogos como titular (5 vindo do banco de reservas) e 18 gols, incluindo um hat-trick diante do Olympiakos e a consequente classificação do United às quartas da Champions League. Para termos um panorama melhor, considerem que Rooney teve 14 aparições a mais e marcou 19 vezes. A transição pós-Ferguson seria difícil pra qualquer um e van Persie sofreu implicações ainda maiores: o boss teria sido o fator desequilibrante quando o jogador escolheu seu novo clube e também fez questão de prometer que ficaria por no mínimo três anos antes de se aposentar. Não foi o que aconteceu e todos, sem exceção, continuam sentindo sua falta.


Mas aí veio a Copa do Mundo, outro capítulo à parte. Louis van Gaal, treinador da Holanda, acertou sua ida ao United ainda antes do início da competição e muitos já começavam a afirmar que seria ele o responsável pela “ressurreição” do melhor lado do jogador, capitão e camisa 9 da seleção. De fato, aqui no Brasil a dupla se mostrou muito entrosada e tanto os gols de van Persie quanto a audácia tática e o man-management demonstrado pelo comandante foram razões para que a empolgação tomasse conta de Old Trafford. A dobradinha continuaria em boa fase e traria essa mentalidade vencedora - que deixamos de lado sob a batuta de Moyes - de volta à nossa casa? Esperanças em vão.


Van Gaal até depositou suas fichas no centroavante - não como esperado, sendo que a faixa de capitão foi delegada a Wayne Rooney - e foi paciente, até demais, enquanto o jogador estava em um ritmo totalmente diferente dos demais. Dentro das quatro linhas, porém, é inegável que RVP tenha perdido consideravelmente a sua ‘articulação’ e vê-lo conduzindo a bola dava mais a sensação de que o mesmo estava prestes a se contundir do que a animação com uma possível chance de gol que outrora era praticamente uma regra.


Foram míseros 10 gols em 29 atuações e de longe a sua pior temporada pelo clube. No fim das contas, se somarmos os gols anotados nas duas últimas campanhas (18+10 = 28) não chegamos nos 30 de 2012/13. E no que tange as performances ‘gerais’ do atleta, muito pouco foi destacável além daquele vigésimo título. Mas foi por isso que ele veio e foi isso o que ele conquistou. Sir Alex Ferguson, seus companheiros nesses três anos e a torcida: todos devem uma dose de respeito e de admiração por Robin van Persie, que poderia ter feito muito mais por aqui, mas em algumas semanas fez com que a bagatela de 24 milhões de libras se tornasse uma barganha. 


E trouxe o plus de ver a torcida do Arsenal louca com mais um jogador os deixando na busca por títulos. Nada surpreendente, convenhamos.